sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sumo natural vs. Sumo integral: descubra as diferenças

Pensamos nós: quão afortunados seremos para encontrar um sítio em que pagamos 5 euros por um menu com prato e sumo de fruta natural? Já de si, a esmola é muita, mas o que a torna REALMENTE suspeita é o facto de - surpresa das surpresas - continuarmos a estar em plena Linda-a-Velha.

E se nada mais pudesse criar estranheza, a junção pouco convencional de sabores faria corar uma qualquer Danone, ficando num estranho limbo entre a criatividade gastronómica e a parafernália bipolar. À chegada, depois de escolhermos entre o menos mau de 3 pratos aparentemente em vias de extinção - já só restam 1 ou 2 de cada, excluindo o bacalhau que infelizmente nunca acaba mas que está sempre fora de questão - vamos sendo surpreendidos com a variada panóplia de sumos de fruta disponíveis a pedido: "Ora bem, hoje temos Laranja-Banana, Ananás-Melão-Hortelã, Jabuticaba-Romã e Limonada", diz o empregado semi-eslavo, aparentando não reparar no atordoamento momentâneo do visitante ocasional com a estranheza das várias hipóteses.

O que não é dito imediatamente é que, em Linda-a-Velha, a sua saúde é levada muito a sério. E se eles dizem que é natural, caralhos nos fodam se não é mesmo natural. Natural demais, até. Tão natural, tão natural, que se reduz ao mínimo a intervenção humana no entre o produto inicial - a fruta - e o produto final - o sumo - preservando ao máximo as suas propriedades de origem. Traduzindo isto por linguagem não científica, quer dizer que a banana vai para dentro da Bimby no mesmo estado em que veio da árvore. Sem tirar nem pôr. Acontece depois que o promissor sumo Laranja-Banana acaba por saber a Pistaccio-Caranguejo, mais coisa menos coisa. Contudo, em boa verdade, o problema não vem da fruta. Vem mesmo da casca.

Sumo de Casca de banana: um miminho para o esfíncter.

Há que dar a mão à palmatória. Em Linda-a-Velha assistimos à criação de um novo conceito: o sumo integral. Ou isso, ou são apenas os restos das saladas de fruta de ontem, o que justifica em grande parte a variedade de sabores (em toda a acepção do termo). Seja como for, a verdade é que à terceira vez só os mais corajosos ainda se aventuram pela Tropicália. De resto, vai mesmo a água natural. E às vezes, com gás.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ponto 1 na acta de reuniões: sobre o porquê de termos uma secção inteirinha dedicada a Linda-a-Velha

Honestamente, não sei se alguma vez já foram a Linda-a-Velha. Espero que não. Acho que é um daqueles locais escolhidos a dedo por entidades como Saddam Hussein e Isaltino Morais para subjugar os pobres diabos que trabalham para ganhar a vida e que, em algum triste momento da sua existência, acabaram confrontados com uma opção entre Massamá, Queluz de Baixo e Miratejo, o que, colocado em perspectiva, faz com que Linda-a-Velha apareça diante dos nossos olhos como uma espécie de subúrbio prometido, reservado em exclusivo a uma classe mais ou menos média com muito baixas expectativas.
 
Permitam-nos, assim, desmistificar algumas das concepções erradas que ainda possam subsistir no turista acidental.

1. LINDA-A-VELHA TEM IMENSOS TRANSPORTES.

Sim, se considerarmos a Vimeca como um meio de transporte legítimo e não como algo cuja mera existência deveria ser criminalizada com a pena de morte.

"Tem o direito a permanecer calado. Tudo o que disser poderá forçá-lo a andar nesta merda até ao final da sua vida."

2. EM LINDA-A-VELHA HÁ IMENSOS CAFÉS.

Errado. A julgar pela amostra, podemos afirmar como toda a segurança que o que aqui existe em aparente abundância são, na verdade, Estações de Tratamento de Águas Residuais.

"Para si é cheio, não é?"

3. OS RESTAURANTES DE LINDA-A-VELHA NÃO SÃO UMA PORTA DIRECTA PARA O INFERNO.

Esta terra esquecida pela ASAE parece ter o especial condão de destratar a nossa portugalidade mais profunda. Faz de cada bacalhau uma alheira metafórica. Diminui de tal forma os nossos níveis de exigência que transforma cada refeição num gang-bang da alma. Depois de um bitoque de porco, sentimo-nos sujos por dentro. Depois de uma pescada com natas, queremos abandonar a vida por completo. E, dia após dia, a força de espírito que nos faria revoltar por receber uma sopa de mosquitos simplesmente desvanece, dando lugar a uma resignação infeliz e silenciosa. "São 7 euros, por favor".

"Sai um bacalhau com natas!"
 Mas há mais do que isto. Porque os restaurantes em Linda-a-Velha são a verdadeira encarnação do mal: tal como a mulher que leva do marido, seduzem-nos ardilosamente para acreditar que, a partir de determinada 3.ª feira, nada é assim tão mau; porque existe um novo cozinheiro, porque a empregada hoje foi simpática, porque até tem sobremesas de frutos exóticos, porque hoje até está sol, alguém lavou o bigode e a senhora que está sentada ao nosso lado tem a decência de fumar para o lado da estrada; e, quando menos se espera, pumba: alheira de bacalhau. Assim, sem meias medidas. De forma cruel. Sem aviso. E, tal como a mulher que afinal caiu das escadas abaixo, sacamos do cartão multibanco e murmuramos simplesmente em loop, sem que ninguém nos oiça: "nunca mais". Ou, pelo menos, até à próxima terça.